Pergunta 1
Lê o texto e responde.
Texto: "Niketche" (Paulina Chiziane)
Vou visitar a tia Maria, e ela conta-me histórias da poligamia. Casada pela primeira vez aos 10 anos, o casamento foi encomendado antes do seu nascimento. O pai tinha uma dívida, não conseguia pagar impostos e disse ao cobrador de impostos: a minha mulher está grávida, se nascer uma menina, entregá-la-ei como pagamento. E assim foi. Aos 10 anos, tornou-se a vigésima quinta esposa de um rei. Teve um príncipe no ventre. Foi amada loucamente por um guarda real de quem teve dois filhos. Como se isso fosse pouco, tem agora dois maridos, ambos vivendo no mesmo tecto.
– Como conseguiu viver num lar com vinte e cinco esposas, tia Maria?
A velha oferece-me um olhar de infinita ternura.
– Filha minha, a vida é uma eterna partilha. Partilhamos o ar, o sol, partilhamos a chuva e o vento. Partilhamos a enxada, a foice, a semente. Partilhamos a paz e o cachimbo. Partilhar um homem não é crime. Vezes há em que partilhar a mulher é necessário, quando o marido é estéril e precisa colher o sémen de um irmão.
– Foi feliz, tia Maria?
– Era ainda espiga, os meus olhos ainda reflectiam sol e lua. Não conhecia ainda o significado da amargura. Éramos um grande rebanho de mulheres aguardando cobertura. Soltávamos crias que voavam sobre ervas como pirilampos, estrelas desprendidas iluminando a savana escura. Conheci o rei de facto quando tinha uns treze anos.
– Rainha dentro de um harém, tia Maria? – Pergunto arrepiada, imaginando os haréns das mil e uma noites, com restrições, eunucos e essas coisas.
– No nosso mundo não havia haréns – explica-me ela. – Eram famílias verdadeiras onde havia democracia social. Cada mulher tinha a sua casa, seus filhos e suas propriedades. Tínhamos o nosso órgão, assembleia das esposas, onde discutíamos a divisão do trabalho, decidíamos quem iria cozinhar as papas matinais do soberano, quem ia preparar os banhos e esfregar os pés, cortar as unhas, massajar a coluna, aparar a barba, pentear o cabelo e outros cuidados. Participávamos na feitura da escala matrimonial de sua majestade, que consistia numa noite para cada uma, mas tudo igual, igualzinho. E eu cumpria à risca. Ele tinha que dar um exemplo de Estado, um bom modelo de família.
Se o rei cometesse a imprudência de dar primazia a uma mulher em especial, tinha que suportar as reuniões de crítica dos conselheiros e anciãos. A mim, o rei tinha-me quantas vezes queria, mas no meu caso ninguém tocava. O meu estatuto nem era questionado. As mulheres todas se rendiam ao meu encanto. Fui uma grande dama, sabes.
– Noto muito orgulho e muita vaidade no tom da sua voz. Não consigo perceber a razão daquela felicidade, num lar com mais de vinte esposas, sem direitos, nem liberdade nenhuma.
"Vou visitar a tia Maria, e ela conta-me histórias da poligamia." Por que a tia Maria entrou num casamento poligâmico?
- Ela escolheu casar com o rei
- Eram costumes daquela sociedade
- Os pais usaram-na como agradecimento ao rei
- Os pais tinham uma dívida de imposto
Não foi escolha dela nem agradecimento: foi pagamento de uma dívida.
Aula em vídeo: ▶ Niketche: uma história de poligamia — Brasil Escola Oficial